segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Quintal

Quando uma criança não frequenta a escola, não tem irmãos, não tem vizinhos da mesma idade, não tem uma praçinha, um parquinho, um playground, ou seja, é uma completa prisioneira dentro de um apartamento, é uma situação de partir o coração.

Assim é a vida da minha filha, uma solitária vidinha de três anos de duração, correndo do quarto para a sala, da sala para a área e de novo para a sala. A sua janela para o mundo é a televisão. Por ela entra a maior parte das coisas que enchem de significado a vidinha de Laura. Todos os dias agradeço pelo Discorey Kids! Pelo menos são desenhos mais selecionados, sem violência, com boas mensagens e uma sofisticação visual de dar pena nos nossos antigos desenhos do Mancha Chuva ou dos Flintstones. Mas, mesmo assim, é só uma televisão. Eu fico lembrando da minha meninice, subindo na jabuticabeira da casa da minha tia, rodeada de patos e galinhas. Me vem a saudade das visitas na casa da outra tia que criava coelhos e eu podia acariciar os filhotinhos e sentir sua vida pulsando em minhas mãos. Bom, é verdade que ela vendia os coelhos para serem abatidos num restaurante depois que estavam na idade certa, mas na época eu nem desconfiava disso, para mim aquele quintal era apenas o paraíso dos bichinhos fofinhos, que andavam engraçado e comiam as folhinhas que eu entregava. Quintal! Olha só que palavra linda! Na minha casa também havia um, com terra, pedrinhas, gramíneas, formigueiros, minhocas e outras preciosidades que eram muito úteis para se fazer uma boa sopa de bruxa.

E a minha pequena? Onde estão as minhocas para ela brincar, ou a terra debaixo das unhas? Meu sonho de consumo hoje é um quintal. Não me importa mais a casa, quero comprar um quintal para morar. Um lugar para Laura crescer junto com um cachorro, os dois rolando na terra, se beijando e lambendo, como eu beijava e lambia os meus cachorrinhos.

Hoje, Laurinha tem que ir à casa das avós para ver cachorros. Na vovó Conceição, há o caridoso Pierre, um pudle standar com uma estranha paciência em relação aos ataques violentos de carinho da minha filha. Laura puxa-lhe as orelhas, senta em sua cabeça, monta sobre ele e o fustiga como um pônei maldito, coitado! Na vovó Tereza, a coisa é mais séria, dois cães neurastênicos e vira-latas não são muito de confiança e o contato com Laura é mais restrito. Mesmo assim, ela vai ao delírio só de vê-los.

Mas não existem apenas desvantagens na vida de Laurinha. Criança de apartamento, criada pela Discovery Kids é assim: sem lombriga e cheia de vocabulários sabidinhos. Um dia, saio correndo para trabalhar e ela filosofa com a babá: "Se a mamãe perder o ônibus, vai ficar muito desapontada!". No final de semana, me veio com essa: "Tô fora de cortar a unha, viu mamãe?". Até ataca de poesia, subindo em minha cama numa manhã: "Mamãe: a lua já foi embora e o sol já surgiu!" Tudo uma graça sem fim. Mas mesmo assim, ainda preferia minha menina num quintal, com as unhas sujas de terra e um vira lata ao seu lado, como um companheiro inseparável de travessuras.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Laura de Neve e os sete anões

A primeira festa de aniversário da minha filha foi uma das coisas mais exaustivas que eu já fiz na vida. Decidi fazer eu mesma parte dos docinhos, enfeitar o salão da casa da minha mãe, soprar os famigerados balões, alugar mesas e cadeiras, fazer escova no meu próprio cabelo, servir salgados e refri, receber presentes, enfim, tudo! Minha irmã tirou uma foto minha no final da festa que resume o resultado da façanha: eu estou um bagaço na foto. Aliás, fiquei aliviada quando acabou, alívio que durou pouco pois assim que vi a bagunça que tinha para arrumar, me deu vontade de chorar.

A comemoração dos dois anos foi ainda pior, já que tive a brilhante ideia de fazer dentro do meu apartamento. Minhas irmãs solidárias apareceram para ajudar mas o caos era inevitável. No auge da festinha acho que tinha gente comendo bolo até sentado na privada do banheiro porque não cabia mais ninguém no apê. E a ressaca do dia seguinte... É como se o tisunami tivesse passado no seu apartamento varrendo tudo! Cheguei a achar que era mais fácil vender a casa que tentar limpar tudo aquilo. O trauma foi tão grande que eu fiz uma coisa que jamais havia conseguido em 42 anos de existência: abri uma caderneta de poupança só para juntar dinheiro para a festa dos três aninhos da Laura!

Foi uma das poucas decisões sábias da minha vida. Eu cheguei na festa e tudo estava pronto, os balões sobrados, os docinhos arranjados nas mesas, os garçons prontos para servir. Os convidados entravam e alguém já havia separado o presente deles com nome, as crianças eram devidamente distraídas por monitores e a coisa que me deu mais trabalho a festa inteira foi tirar Laura do pula pula para cantar o parabéns. E o melhor: eu não tive que varrer o chão coberto de brigadeiros esmagados no final. Aliás, Laura amou de paixão a festa e eu deixei ela curtir do jeitinho que ela gosta de ser: correndo prá lá e para cá sem falar com ninguém e rosnando para qualquer um que se atrever a interromper sua brincadeira.

 Festa de criança em buffet é a única forma civilizada de se comemorar um aniversário. Mas prepare-se para o preço final. Acho que já vou começar a poupança do ano que vem.

P.S.: o tema da primeira festa foram os Backyardigans. Na segunda festa, foi a vez da turma do Cocoricó. Aos três aninhos, a festa tem a Branca de Neve como tema, mas na verdade a Laura gosta mesmo é dos anões! Ela tem os bonequinhos com eles em miniatura e nunca quer ser a Branca, sempre quer interpretar os anões. O preferido é o Dunga...Ou seja, o que não é de falar muito, tipo ela mesma.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Lady Gaga e Senhor dos Anéis para menores

Falta um mês para Laura completar 3 anos e tem demonstrado um gosto no mínimo peculiar. A-DO-RA Lady Gaga! Quer ver os vídeos, tem os preferidos e sabe cantar o refrão de Judas e gosta do chachorrinho que aparece no Poker Face. Depois ficou com medo do vídeo I Was Born This Way por que a Gaga aparece pintada como caveira.

- Cuidado, viu, mamãe. Tem uma Lady Gaga nesse "putador", viu? (tradução: computador) Ela é uma "biuxa" (tradução: bruxa).

Mas logo se esquecia e queria dançar. Todas as noites, lá vinha a Lady Gaga animar o ambiente, entrando em nossa casa através dos cabos da internet. Primeiro, Laura assistia ao vídeo para, segundos após, inspirada, pulava da cadeira e colocava-se a dançar, me puxando pela mão. E não bastava dançar, tinha que correr, pular e, principalmente rodar. Claro que ela não se importa nem um pouco com o fato de eu já ter passado dos 20 anos (há algumas décadas, na verdade), ter trabalhado o dia inteiro e, pra piorar, acabara de subir 7 quarteirões de onde o ônibus me deixa até em casa.

Finalmente, Deus teve piedade de mim e operou seu milagre: o computador estragou. Há duas semanas não assisto Lady Gaga. Fiquei até com receio de ter uma crise de abstinência mas estou suportando melhor do que o esperado. Laura superou ainda mais rápido que eu. No primeiro dia ainda insistiu que eu ligasse o computador, meio desconfiada de que tudo não passava de uma encenação minha para por fim à sua ídala Lady Gaga. Mas, no dia seguinte encontrou um substituto à altura. Remexendo nos armários, deparou-se com a trilogia Os Senhor dos Anéis e essa agora é a nova paixão de Laurinha. Apesar dos Orcs monstruosos como porcos do mato assassinos, do Golum deformado e enlouquecido e das inúmeras cenas de batalhas medievais com braços arrancados por espadas, o pai achou que os filmes eram apropriados para a idade da menina, e liga o DVD todas as noites para ver junto com ela. Se ela ficar traumatizada, que fique registrado aqui: a culpa é do Senhor dos Anéis (o pai), e não da Lady Gaga (a mãe)!

Em tempo: o personagem preferido de Laura é o mago Gandalf que ela carinhosamente chama de Tio Túlio (uma homenagem ao tio do meu marido que só falta a barba pra ficar igualzinho a ele!).

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Coisas de Laurinha - julho de 2011

Tem uma bem antiga que só lembrei hoje. Estava tendo um daqueles dias de falta de paciência, irritada com Laura e comecei a chorar de pura raiva. Minha filha ficou muito assustada, percebia que a energia à minha volta não estava nada boa. Ela se aproximou com a carinha assustada e disse, movendo as mãos num gesto apaziguador:

- Calma, mamãe. Não chore. Eu tenho uma massagem.

Laura geralmente pronuncia corretamente as palavras, é até meio sem graça. Ma um dia, pulando sem parar do sofá, ela vei com essa:

- Mamãe, não se preocupe. Eu vou pular degavarzinho. É degavarzinho, mãe.

Ontem ela pediu para assistir ao Senhor dos Anéis, coisa que não gosto pois ela nem tem três anos e o filme é cheio de lutas e monstros. Em dado momento, ela levantou-se excitada no sofá gritando:

- Agora é que vai chegar o Golum, mãe. Agora é que o Golum vai dar zebra!

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Domingão do Negão

Domingo de sol, o superpai leva a filha para passear na pracinha, ver os primos e a avó, correr, pular e brincar. UFA! De tarde, chegou em casa e ainda deu um banho caprichado na menina, entregando a filhinha limpinha e satisfeita nos braços da mãe. Depois dessa maratona, nada mais justo que tomar uma cervejinha... e até mais de uma, né? É justíssimo! Enquanto beberica sua cervejinha merecida, o paizão faz massagem nas costas da mãe. Isso é que é marido! Melhor nem ficar contando tudo o que ele faz para não despertar inveja na mulherada, mas eu sou realmente muito bem servida quando o assunto é príncipe encantado. Mas nem mesmo um príncipe é de ferro...

- Amor, agora vou fazer a Laurinha dormir - avisa meu marido, caminhando solenemente com nossa filha no colo em direção ao quarto.
- Você não está cansado demais, não? - pergunto preocupada.
- Não, tô ótimo! Vou até ler umas historinhas para ela.

Enquanto lavo a louça na cozinha, começo a ouvir a voz de Laura no quarto, falando sem parar. Resolvo dar uma espiada e, surpresa! Minha filha está sentada no sofá cama com o livro aberto, contando a historinha da Bela Adormecida na maior empolgação, enquanto meu marido está deitado ao lado dela dormindo como um anjo...


segunda-feira, 18 de julho de 2011

Que Flagra!

Pai e mãe ocupados, estressados e trabalhadores nunca têm tempo para uma noite de paixão. Então, às vezes o negócio é se virar com uma rapidinha pela manhã mesmo. Mas não é que as crianças realmente têm o sexto sentido apuradíssimo nessas horas? Minha filha nunca ouve nada do que digo:

- Filha, não sobe na mesa. Filha, fica quieta. Menina, tira isso da boca. Laura venha cá agora! Tá me ouvindo, Laura? Venha agoraaaaaa!

Nada, a criança nem se mexe, surda como uma porta. Mas bastam alguns susurros sutis, alguns estalinhos leves de beijos e parece que um radar liga-se imediatamente dentro daquela cabecinha. Hoje, só deu tempo para arrancar o pijama e a camisola, nem bem começamos a ação e ouvimos passinhos na porta do quarto. Não acreditei! Ela jamais se levanta pela manhã, sempre fica na cama chamando o pai para ele ir buscá-la! Ela nunca dá um passinho seque para fora do colchão, exige ser carregada até o sofá para tomar seu iogurte. Então, porque justo hoje, ela resolveu vir até o quarto? Rapidamente, fingimos total tranquilidade, tentado agir normalmente.

- Mamãe? Papai? - a vozinha doce soou da porta.

- Venha aqui, filhinha - meu marido estendeu os braços para a pequenininha que correu para eles imediatamente, sendo içada para o meio da cama de casal.

Ela sentou-se entre nós dois, olhou bem para um, depois para o outro e disse num leve tom de censura:

- Hummm... Então, vocês tiraram a roupa, heim?

Quem tiver resposta para essa, gentileza enviar para meu blog porque, até o momento, não soube o que responder ainda.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Dois thrillers numa só noite

Hoje troquei de lugar com meu marido. Enquanto ele passeava pelo Youtube com nossa filha, eu cozinhava os legumes do almoço do dia seguinte. Tudo cenográfico mesmo, ninguém vai comer de verdade porque eu cozinho muito mal e a Laura não come nada nunca mesmo. Aliás, Laura é a prova viva de que os seres humanos não necessitam de alimento algum para brincar, pular, correr e dar ataques de pirraça o dia inteiro. A gente come de guloso mesmo. Enfim, da cozinha ouvia a música dos vídeos que Laura gosta de assistir no Youtube toda noite. Ela tem um gosto extremamente eclético que vai de Lady Gaga a Bebê Lily. Sério! Dois anos e nove meses e adora Lady Gaga, até cantarola o refrão "ôôô ôôô" de Bad Romance. Vai entender.

De repente, pelo som percebi que Elberth havia colocado o vídeo Thriller de Michael Jackson, que eu já assisti pelo menos um bilhão de vezes e sabia ser a cena inicial, antes dele virar lobisomem.

- Amor, você está louco? Desliga isso, vai assustar a menina!

Contrariando-me completamente, Laura olhava fascinada e falava enrolado através da chupeta, eternamente presa à sua boca:

- Mamãe, ele está virando o Lobo Mau!

Sorrindo sem graça, meu marido deu de ombros.

- Viu só? Ela está gostando! Relaxa, amor.

E como era de se esperar, Michael Jackson conquistou mais uma fã com seu vídeo imbatível, mesmo depois de morto há mais de dois anos. Quando dei pela coisa, Laura já dançava com o pai, de pé na cadeira na frente do computador, o clássico passinho de Thriller com as mãozinhas em garras, virando os braços para lá e para cá. Que coisa!

Para fechar a noite, mais um monstro aparece: o Bichinho Comedor de Dentes. Admito: inventar monstros está longe de ser considerado uma forma adequada de educação; é na verdade uma atitude totalmente equivocada, usada por nossos pais e avós e que pode tornar a criança medrosa. Mas depois de travar, pela milionésima vez, a inglória batalha de escovar os dentes, usando as explicações lógica de higiene, simplesmente desisti e optei pelo golpe baixo.

- Então, você não quer escovar os dentinhos, não é? Lembra que a Vovó disse que seu primo Mateus foi ao dentista? Sabe por quê? Ele não escovou os dentes e aí o Bichinho Comedor de Dentes, que adora sujeira, entrou na boca dele!

Round 1: Laura arregala os olhos.

- Isso mesmo filha - meu marido resolve me apoiar, fazendo uma voz assutada - e eu acho que o Bichinho está vindo aí, ´não é Mamãe?

Viro-me de lado e faço um rugido desfarçado.

Roud 2: Laura se aconchega no pai.

- Calma, filha, eu vou jogar o bicho pela janela enquanto sua Mãe escova seus dentes. Assim, ele não vai entrar na sua boca!

Com essa frase de impacto, Elberth sai valentemente do quarto e trava uma luta com o Bichinho Comedor de Dentes com direito a gemidos e sons de tabefes.

Round 3: pela primeira vez na vidinha dela, Laura abre a boca docilmente para que eu escove os dentes, sempre com os olhinhos arregalados olhando para a porta à espera da entrada do vencedor. Quem sobreviveria à luta? Seu pai ou o Bichinho Comedor de Dentes? Aproveito para escovar com o maior capricho cada dentinhos, inclusive dando uma passadela pela língua! Um luxo! Nocaute! Papai e mamãe , um, Laura, zero.  Depois eu rezo um terço para minha Santa Super Nanny como penitência.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Coisas de Laurinha (junho)

Ontem, Laura deixou cair uma boneca de biscuit no chão. Ao ver a boneca quebrada, pôs as mãos na cintura:
- Hoje eu estou toda com raiva!
Aliás, ela anda colocando muito a mão na cintura ultimamente, em especial quando contrariada. Vem tirar satisfação com a gente, a carinha sérias e as mãos na cintura:
- Cadê meu bico, heim?
Dá até medo, aquela coisinha de 2 anos e 9 meses, mandando e desmandando em casa. Mas tem hora que a gente tem que fazer valer nossa vontade de pais - no dia da vacinação. Tá pensando que é fácil? Nem o Zé Gotinha passa incólume pela ira de Laurinha.
Eu e meu marido resolvemos levá-la ao Carrefou para tomar as vacinas no posto montado por lá. Afinal, o pessoal do caixa já nos conhece mesmo, o vexame seria menor. As inocentes enfermeiras nem imaginavam o que iriam enfretar, vieram todas sorridentes com o vidrinho de pingar as gotinhas como se fosse ser sopa no mel. Mas Laura não iria se entregar sem luta e os chutes e berros começaram só para engolir DUAS míseras gotas de vacina. Depois de presenciarem o escândalo, as enfermeiras ficaram mais espertas para dar a vacina contra sarampo. Afinal, tratava-se de uma picada de agulha, a luta ia ser feia!
- O senhor segure o bracinho esquedo dela com o seu antebraço - orientou uma das enfermeiras. As perninhas dela, o senhor prende no meio das suas pernas. Mãe, vem cá! Segura a cabeça dela, isso. Vem aqui, ô fulana, você segura o braço e a barriga. Assim, bem firme que eu vou aplicar agora!
Quase não demos conta. Quatro adultos versus uma Laura. Resultado: empate técnico. Conseguimos dar a injeção mas cada um saiu com um hematoma, rsrsrs.