quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Modelo de beleza

- Mamãe, eu queria ser branca igual a você. Branca com o cabelo cor de rosa!

Fiquei toda orgulhosa. Finalmente eu me tornei modelo de beleza para alguém. Minha moreninha ainda não entende que, num país tropical, uma pele dourada como a dela é 50% do que uma mulher precisa para ficar bem dentro de um biquini; e ser uma branquela sardenta é o seu passaporte para problemas de pele.

Para mim, Laura é toda perfeitinha. O corpinho desenhadinho, todo certinho, o nariz arrebitado, a boquinha delicada, os olhos escuros e vivos. Só tinha uma coisa me incomodando ultimamente: os dentinhos de vampira. Os canino de Laura estavam estranhamente saltados, maiores que os demais e resolvi levá-la ao dentista pela primeira vez, temendo que a médica recomendasse serrar os dentinhos ou coisa parecida. Qual não foi minha surpresa ao ouvir o diagnóstico:

- Ela está com a mordida aberta. Não são os caninos que estão grandes, são os outros dentes que estão mais baixos por chupar tanto o bico. E ela está com tártaro, viu?

Pronto! A primeira coisa prejucidial que fiz à minha filha. Sempre soube que o bico podia entortar os dentes, mas não adiantou, deixei ela continuar com a chupeta e agora, Laura ia sofrer as consequências. Me senti péssima e, no mesmo dia já comecei a regular o bico e a caprichar mais na escovação.

À noite, para tentar manter Laura com a boca aberta por mais tempo, comecei a contar uma história enquanto escovava os dentes. Mas não podia ser uma história qualquer, tinha que ser uma história com uma moral, uma forma de catequisar minha filha sobre a importãncia da escova de dentes. Então, comecei:

- Era uma vez uma moça que queria ajudar as crianças. Aí, ela foi trabalhar com a dentista Dra. Ellen e disse: quero ajudar as crianças, doutora. Aí a Dra. Elle disse: você tem que escovar os dentinhos delas com carinho. Aí a moça disse...

Nesse ponto, Laura afastou o rosto livrando-se da escova em sua boca e disse:

- Mamãe, eu tenho uma história muito melhor, ó: era uma vez um monstro de duas pernas.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Quintal

Quando uma criança não frequenta a escola, não tem irmãos, não tem vizinhos da mesma idade, não tem uma praçinha, um parquinho, um playground, ou seja, é uma completa prisioneira dentro de um apartamento, é uma situação de partir o coração.

Assim é a vida da minha filha, uma solitária vidinha de três anos de duração, correndo do quarto para a sala, da sala para a área e de novo para a sala. A sua janela para o mundo é a televisão. Por ela entra a maior parte das coisas que enchem de significado a vidinha de Laura. Todos os dias agradeço pelo Discorey Kids! Pelo menos são desenhos mais selecionados, sem violência, com boas mensagens e uma sofisticação visual de dar pena nos nossos antigos desenhos do Mancha Chuva ou dos Flintstones. Mas, mesmo assim, é só uma televisão. Eu fico lembrando da minha meninice, subindo na jabuticabeira da casa da minha tia, rodeada de patos e galinhas. Me vem a saudade das visitas na casa da outra tia que criava coelhos e eu podia acariciar os filhotinhos e sentir sua vida pulsando em minhas mãos. Bom, é verdade que ela vendia os coelhos para serem abatidos num restaurante depois que estavam na idade certa, mas na época eu nem desconfiava disso, para mim aquele quintal era apenas o paraíso dos bichinhos fofinhos, que andavam engraçado e comiam as folhinhas que eu entregava. Quintal! Olha só que palavra linda! Na minha casa também havia um, com terra, pedrinhas, gramíneas, formigueiros, minhocas e outras preciosidades que eram muito úteis para se fazer uma boa sopa de bruxa.

E a minha pequena? Onde estão as minhocas para ela brincar, ou a terra debaixo das unhas? Meu sonho de consumo hoje é um quintal. Não me importa mais a casa, quero comprar um quintal para morar. Um lugar para Laura crescer junto com um cachorro, os dois rolando na terra, se beijando e lambendo, como eu beijava e lambia os meus cachorrinhos.

Hoje, Laurinha tem que ir à casa das avós para ver cachorros. Na vovó Conceição, há o caridoso Pierre, um pudle standar com uma estranha paciência em relação aos ataques violentos de carinho da minha filha. Laura puxa-lhe as orelhas, senta em sua cabeça, monta sobre ele e o fustiga como um pônei maldito, coitado! Na vovó Tereza, a coisa é mais séria, dois cães neurastênicos e vira-latas não são muito de confiança e o contato com Laura é mais restrito. Mesmo assim, ela vai ao delírio só de vê-los.

Mas não existem apenas desvantagens na vida de Laurinha. Criança de apartamento, criada pela Discovery Kids é assim: sem lombriga e cheia de vocabulários sabidinhos. Um dia, saio correndo para trabalhar e ela filosofa com a babá: "Se a mamãe perder o ônibus, vai ficar muito desapontada!". No final de semana, me veio com essa: "Tô fora de cortar a unha, viu mamãe?". Até ataca de poesia, subindo em minha cama numa manhã: "Mamãe: a lua já foi embora e o sol já surgiu!" Tudo uma graça sem fim. Mas mesmo assim, ainda preferia minha menina num quintal, com as unhas sujas de terra e um vira lata ao seu lado, como um companheiro inseparável de travessuras.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Laura de Neve e os sete anões

A primeira festa de aniversário da minha filha foi uma das coisas mais exaustivas que eu já fiz na vida. Decidi fazer eu mesma parte dos docinhos, enfeitar o salão da casa da minha mãe, soprar os famigerados balões, alugar mesas e cadeiras, fazer escova no meu próprio cabelo, servir salgados e refri, receber presentes, enfim, tudo! Minha irmã tirou uma foto minha no final da festa que resume o resultado da façanha: eu estou um bagaço na foto. Aliás, fiquei aliviada quando acabou, alívio que durou pouco pois assim que vi a bagunça que tinha para arrumar, me deu vontade de chorar.

A comemoração dos dois anos foi ainda pior, já que tive a brilhante ideia de fazer dentro do meu apartamento. Minhas irmãs solidárias apareceram para ajudar mas o caos era inevitável. No auge da festinha acho que tinha gente comendo bolo até sentado na privada do banheiro porque não cabia mais ninguém no apê. E a ressaca do dia seguinte... É como se o tisunami tivesse passado no seu apartamento varrendo tudo! Cheguei a achar que era mais fácil vender a casa que tentar limpar tudo aquilo. O trauma foi tão grande que eu fiz uma coisa que jamais havia conseguido em 42 anos de existência: abri uma caderneta de poupança só para juntar dinheiro para a festa dos três aninhos da Laura!

Foi uma das poucas decisões sábias da minha vida. Eu cheguei na festa e tudo estava pronto, os balões sobrados, os docinhos arranjados nas mesas, os garçons prontos para servir. Os convidados entravam e alguém já havia separado o presente deles com nome, as crianças eram devidamente distraídas por monitores e a coisa que me deu mais trabalho a festa inteira foi tirar Laura do pula pula para cantar o parabéns. E o melhor: eu não tive que varrer o chão coberto de brigadeiros esmagados no final. Aliás, Laura amou de paixão a festa e eu deixei ela curtir do jeitinho que ela gosta de ser: correndo prá lá e para cá sem falar com ninguém e rosnando para qualquer um que se atrever a interromper sua brincadeira.

 Festa de criança em buffet é a única forma civilizada de se comemorar um aniversário. Mas prepare-se para o preço final. Acho que já vou começar a poupança do ano que vem.

P.S.: o tema da primeira festa foram os Backyardigans. Na segunda festa, foi a vez da turma do Cocoricó. Aos três aninhos, a festa tem a Branca de Neve como tema, mas na verdade a Laura gosta mesmo é dos anões! Ela tem os bonequinhos com eles em miniatura e nunca quer ser a Branca, sempre quer interpretar os anões. O preferido é o Dunga...Ou seja, o que não é de falar muito, tipo ela mesma.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Lady Gaga e Senhor dos Anéis para menores

Falta um mês para Laura completar 3 anos e tem demonstrado um gosto no mínimo peculiar. A-DO-RA Lady Gaga! Quer ver os vídeos, tem os preferidos e sabe cantar o refrão de Judas e gosta do chachorrinho que aparece no Poker Face. Depois ficou com medo do vídeo I Was Born This Way por que a Gaga aparece pintada como caveira.

- Cuidado, viu, mamãe. Tem uma Lady Gaga nesse "putador", viu? (tradução: computador) Ela é uma "biuxa" (tradução: bruxa).

Mas logo se esquecia e queria dançar. Todas as noites, lá vinha a Lady Gaga animar o ambiente, entrando em nossa casa através dos cabos da internet. Primeiro, Laura assistia ao vídeo para, segundos após, inspirada, pulava da cadeira e colocava-se a dançar, me puxando pela mão. E não bastava dançar, tinha que correr, pular e, principalmente rodar. Claro que ela não se importa nem um pouco com o fato de eu já ter passado dos 20 anos (há algumas décadas, na verdade), ter trabalhado o dia inteiro e, pra piorar, acabara de subir 7 quarteirões de onde o ônibus me deixa até em casa.

Finalmente, Deus teve piedade de mim e operou seu milagre: o computador estragou. Há duas semanas não assisto Lady Gaga. Fiquei até com receio de ter uma crise de abstinência mas estou suportando melhor do que o esperado. Laura superou ainda mais rápido que eu. No primeiro dia ainda insistiu que eu ligasse o computador, meio desconfiada de que tudo não passava de uma encenação minha para por fim à sua ídala Lady Gaga. Mas, no dia seguinte encontrou um substituto à altura. Remexendo nos armários, deparou-se com a trilogia Os Senhor dos Anéis e essa agora é a nova paixão de Laurinha. Apesar dos Orcs monstruosos como porcos do mato assassinos, do Golum deformado e enlouquecido e das inúmeras cenas de batalhas medievais com braços arrancados por espadas, o pai achou que os filmes eram apropriados para a idade da menina, e liga o DVD todas as noites para ver junto com ela. Se ela ficar traumatizada, que fique registrado aqui: a culpa é do Senhor dos Anéis (o pai), e não da Lady Gaga (a mãe)!

Em tempo: o personagem preferido de Laura é o mago Gandalf que ela carinhosamente chama de Tio Túlio (uma homenagem ao tio do meu marido que só falta a barba pra ficar igualzinho a ele!).

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Coisas de Laurinha - julho de 2011

Tem uma bem antiga que só lembrei hoje. Estava tendo um daqueles dias de falta de paciência, irritada com Laura e comecei a chorar de pura raiva. Minha filha ficou muito assustada, percebia que a energia à minha volta não estava nada boa. Ela se aproximou com a carinha assustada e disse, movendo as mãos num gesto apaziguador:

- Calma, mamãe. Não chore. Eu tenho uma massagem.

Laura geralmente pronuncia corretamente as palavras, é até meio sem graça. Ma um dia, pulando sem parar do sofá, ela vei com essa:

- Mamãe, não se preocupe. Eu vou pular degavarzinho. É degavarzinho, mãe.

Ontem ela pediu para assistir ao Senhor dos Anéis, coisa que não gosto pois ela nem tem três anos e o filme é cheio de lutas e monstros. Em dado momento, ela levantou-se excitada no sofá gritando:

- Agora é que vai chegar o Golum, mãe. Agora é que o Golum vai dar zebra!

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Domingão do Negão

Domingo de sol, o superpai leva a filha para passear na pracinha, ver os primos e a avó, correr, pular e brincar. UFA! De tarde, chegou em casa e ainda deu um banho caprichado na menina, entregando a filhinha limpinha e satisfeita nos braços da mãe. Depois dessa maratona, nada mais justo que tomar uma cervejinha... e até mais de uma, né? É justíssimo! Enquanto beberica sua cervejinha merecida, o paizão faz massagem nas costas da mãe. Isso é que é marido! Melhor nem ficar contando tudo o que ele faz para não despertar inveja na mulherada, mas eu sou realmente muito bem servida quando o assunto é príncipe encantado. Mas nem mesmo um príncipe é de ferro...

- Amor, agora vou fazer a Laurinha dormir - avisa meu marido, caminhando solenemente com nossa filha no colo em direção ao quarto.
- Você não está cansado demais, não? - pergunto preocupada.
- Não, tô ótimo! Vou até ler umas historinhas para ela.

Enquanto lavo a louça na cozinha, começo a ouvir a voz de Laura no quarto, falando sem parar. Resolvo dar uma espiada e, surpresa! Minha filha está sentada no sofá cama com o livro aberto, contando a historinha da Bela Adormecida na maior empolgação, enquanto meu marido está deitado ao lado dela dormindo como um anjo...


segunda-feira, 18 de julho de 2011

Que Flagra!

Pai e mãe ocupados, estressados e trabalhadores nunca têm tempo para uma noite de paixão. Então, às vezes o negócio é se virar com uma rapidinha pela manhã mesmo. Mas não é que as crianças realmente têm o sexto sentido apuradíssimo nessas horas? Minha filha nunca ouve nada do que digo:

- Filha, não sobe na mesa. Filha, fica quieta. Menina, tira isso da boca. Laura venha cá agora! Tá me ouvindo, Laura? Venha agoraaaaaa!

Nada, a criança nem se mexe, surda como uma porta. Mas bastam alguns susurros sutis, alguns estalinhos leves de beijos e parece que um radar liga-se imediatamente dentro daquela cabecinha. Hoje, só deu tempo para arrancar o pijama e a camisola, nem bem começamos a ação e ouvimos passinhos na porta do quarto. Não acreditei! Ela jamais se levanta pela manhã, sempre fica na cama chamando o pai para ele ir buscá-la! Ela nunca dá um passinho seque para fora do colchão, exige ser carregada até o sofá para tomar seu iogurte. Então, porque justo hoje, ela resolveu vir até o quarto? Rapidamente, fingimos total tranquilidade, tentado agir normalmente.

- Mamãe? Papai? - a vozinha doce soou da porta.

- Venha aqui, filhinha - meu marido estendeu os braços para a pequenininha que correu para eles imediatamente, sendo içada para o meio da cama de casal.

Ela sentou-se entre nós dois, olhou bem para um, depois para o outro e disse num leve tom de censura:

- Hummm... Então, vocês tiraram a roupa, heim?

Quem tiver resposta para essa, gentileza enviar para meu blog porque, até o momento, não soube o que responder ainda.